Olá, gente amiga deste nosso programa que, mais do que nunca, hoje está a exigir de todos nós um profundo respeito e reflexão sobre a paixão de Jesus Cristo. Para que possamos melhor compreender a dimensão, o significado dessa data à luz do silêncio e da oração, vamos ouvir a nossa amiga psicóloga Lídia Rebouças.
Isso mesmo, Mara Régia. Que bom estar aqui novamente com você nesse programa maravilhoso para que a gente possa refletir sobre a Sexta-feira Santa. Que é o momento em que encaramos o absurdo da crucificação. Se a gente olhar para o nosso país, nós vivemos alguns absurdos no dia a dia. A Sexta-feira, ela tem a ver com esse estarmos de cara com aquilo que a gente não consegue compreender. E isso pede uma respiração mais profunda, isso pede um silêncio interior para que a gente possa atravessar esses momentos de absurdo com inteireza. Para que a gente possa permanecer de pé em meio às dificuldades do cotidiano que sempre estão presentes na vida de todos nós.
Agora, nós estamos vivendo um momento particularmente difícil para nos conectarmos com esse silêncio tão bem-vindo para que a gente possa, dentre outras coisas, nos sentir em prece.
É, nós estamos vivendo muito em contato com os barulhos. Eu conheço muita gente que não desliga a TV em nenhum momento, que tem TV ligada o tempo todo em casa. Então, isso, a alma da gente não suporta isso. A alma pede também um tempo de contemplação, um tempo de remanso, um tempo de quietude. Então a Sexta-feira também nos convida a praticarmos esse silêncio. Esse silêncio que pode ser profundamente reconfortante para cada um de nós. O silêncio que está presente na nossa respiração quando a gente respira suave, profundo. Quando a gente se permite desligar das telas e ir para o nosso quarto, e deixar ele bem escurinho, e simplesmente respirar. E se você não tem a prática de fazer uma oração, não tem nenhum problema, você pode simplesmente respirar suave, profundo, praticar um relaxamento, ouvir uma música mais tranquila, ouvir o silêncio. O nosso ser pede muito essa prática. E isso ajuda bastante na nossa saúde integral. O silêncio também, Mara Régia, nas conversas. Às vezes eu observo pessoas que estão numa conversa e tem um silêncio e a pessoa já fica angustiada querendo preencher. Esse silêncio que surge numa conversa, ele é fundamental. Ele é o momento em que a outra pessoa está refletindo, isso pede um espaço para ser vivenciado. Então numa conversa com o nosso filho, com os nossos amigos, é muito importante acolher esse silêncio também que está presente.
Agora, para quem não tem a prática da meditação, o que você sugeriria fazer nesta sexta-feira em busca de um momento de paz? Às vezes até ficar descalço faz um bem danado, né?
Ficar descalço faz um bem danado. Quando a gente está em casa, se a gente está trabalhando online, ficar descalço. Se a gente vai para o trabalho e pode tirar o sapato embaixo da mesa do trabalho. A contemplação ajuda bastante, ver as belezas do mundo, contemplar essas belezas. Em meio a tudo, o mundo continua um mundo muito bonito. E estar cuidando dessa respiração suave e profunda e cuidando dos pensamentos não como uma repressão, porque não adianta a gente reprimir que eles ficam mais fortes. Mas assim, acolhendo e desapegando, deixando que eles passem como folhas ao vento e voltando a atenção para o aqui e agora. Olhando a planta que está na sua frente, o céu, a criança que apareceu, para que a gente possa descansar um pouco a nossa mente.
Você sabe que morei um tempo fora e andava muito de trem. E descobri na janela as paisagens mais lindas. Só que o trem anda muito rápido. Então, eu fiz uma analogia assim de que aquele movimento do trem me fazendo ver tantas paisagens, mas sem me deter, deveria ser um caminho para que eu pudesse me conectar comigo mesma. Então às vezes são exercícios simples que fazem efeito, né?
É, muito bacana essa imagem que você traz do trem, porque nessa imagem tem o desapego às belas paisagens. O trem passa muito rápido, não dá para se apegar. Você vê uma beleza e a beleza já passou e já tem outra beleza e já tem outra beleza. Isso nos lembra uma coisa que é fundamental: o apego, se a gente for bem honesto, o apego é a raiz do sofrimento, né? Então a gente se apega muito a coisas, pessoas, ideias que dão prazer e vai sofrendo porque tudo passa, né? Páscoa significa passagem. Tudo passa, não só as belas paisagens, nós também.
Pois é. E tão como propõe Ana Vilela na música “Trem Bala”, eu acho que talvez pudéssemos pegar uma carona nesse trem para entender que a gente é passageiro, né? Então eu acho que isso nos remete a uma sensação de impermanência absolutamente necessária.