“Quando chegou no Brasil, cheguei, apanhou o casal, me receberam, fui na casa deles. Aí o homem não queria negro na casa deles. Disse: na minha casa não quero negro, não”
Quem conta é Suzana Salomono. Ela tem hoje 51 anos. Nascida em Moçambique, foi trazida ao Brasil para trabalhar, vítima de tráfico e de exploração.
“Eu não tinha passaporte. Eu não tinha dinheiro para tirar passaporte. O passaporte foi tratado tudo com essa mulher. Mandou para mim, na minha casa.”
Suzana chegou sozinha ao Brasil, sem telefone, sem dinheiro. Um quadro de extrema vulnerabilidade. É o que explica Roque Patussi, do Centro de Apoio e Pastoral do Migrante, em São Paulo.
“No caso da Suzana, ela foi traficada para o Brasil. Não aparece na descrição dos crimes que ela sofreu, só aparece o trabalho escravo, mas ela foi traficada.”
O Defensor Público Murilo Ribeiro Martins explica como a condição de migrante frequentemente aprofunda a vulnerabilidade e facilita a exploração.
“A condição de pessoa migrante é utilizada inclusive como elemento de exploração. O empregador usa isso como elemento de ameaça”.
Liana Chaib, ministra do Tribunal Superior do Trabalho (TST), fala o motivo das pessoas se manterem aprisionadas nessa situação
“Porque a primeira pergunta é: para onde eu vou? Que trabalho digno e decente eu vou ter? É tão surreal, complexo e contraditório que às vezes você quer permanecer ali.”
Suzana Salomono – “Vou aonde? Porque não tinha casa, não tinha família, não tinha ninguém que pôde me dizer que Suzana está aqui para ficar. Não tinha ninguém que me abraçava. Alguém denunciou ela. Não fui eu que denunciou, porque todo mundo falava: Suzana tem que denunciar. Mas eu não sabia como começar, porque eu não sei como começar fazer.”
Suzana foi resgatada e é acompanhada pela Pastoral, em São Paulo, como conta Roque Patussi.
“No caso da Suzana, nós estamos acompanhando de perto. Encaminhamos ela para preparação para empregabilidade e conseguimos colocá-la para trabalhar.”
“Eu consigo sorrir, eu consigo me sentir em casa. Há paz dentro de mim. Agora sim.”
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*Com Colaboração de Ana Graziela Aguiar e Ana Passos, produção de Claiton Miranda e Patrícia Araujo e sonoplastia de Egberty Martins.
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