As plataformas de rede social tendem a reunir certos grupos de pessoas com gostos, interesses e opiniões parecidas em ambientes digitais filtrados, onde o conteúdo entregue para elas está sempre alinhado com estes pensamentos e opiniões, criando justamente a sensação de bolha que dá nome ao fenômeno.

A antropóloga Letícia Cesarino, autora do livro O Mundo do Avesso: Verdade e Política na Era Digital, explica como este isolamento social ocorre e qual o interesse que as empresas por trás das redes têm em alimentar esse processo.

“Então, se ela tem um tipo de pensamento, um tipo de opinião, algum interesse, os algoritmos vão perceber aquele interesse da pessoa e vão começar a entregar para ela, no seu feed, no seu resultado de busca — agora com as inteligências artificiais também —, os algoritmos vão entregando para a pessoa cada vez mais daquele mesmo tipo de conteúdo ou conteúdos parecidos, mas que tendem a ir sempre na mesma direção. Isso acontece porque o objetivo das plataformas é manter as pessoas ali o máximo de tempo possível, é o chamado tempo de tela. Os algoritmos estão sempre maximizando isso. Então a bolha, ela acaba sendo gerada por conta desse viés de que, se você está oferecendo conteúdo do interesse da pessoa, que já contempla aquilo que ela pensa, a forma como ela vê o mundo, ela vai ficar mais tempo ali na rede social, mais tempo ali no próprio WhatsApp. Enfim, o WhatsApp, ele não tem algoritmos, mas ele gera esse mesmo efeito de bolha indiretamente, porque a pessoa que está no WhatsApp também está nas outras plataformas, então esse viés de confirmação que forma as bolhas, ele vai se espalhando ali por todas as plataformas e confirmando, reforçando as visões e pensamentos daquele usuário.”

O principal efeito colateral das bolhas algorítmicas surge na forma da polarização, que apesar de ter ganho força inicialmente dentro do cenário político, tem se propagado nos últimos anos para outros nichos, com discursos de ódio, preconceito e extremismo ganhando força, à medida que bolhas com diferentes visões sobre diferentes assuntos acabam por colidir em debates dentro do campo digital.

“Um dos problemas que são gerados é que boa parte dos usuários de internet hoje recebem retratos da realidade, através de postagens, vídeo, imagens, que são muito personalizados, são muito específicos. Então, as bolhas não são uma bolha só. A imagem da bolha também quer denotar um espaço informacional muito segmentado, onde, se você está dentro de uma bolha, você vai receber um tipo de conteúdo, você vai ter uma certa visão do mundo. E se você está em outra bolha, principalmente se for uma bolha muito diferente ou oposta àquela que a outra pessoa está, você vai ter uma visão diametralmente oposta, às vezes do mesmo evento, do mesmo fato. Então, o julgamento de certo e errado, quando você está numa bolha muito fechada, num ambiente informacional muito homogêneo, que não tem pluralidade de informação, que não tem diversidade de agentes, não tem muito contraponto, tudo é lido através do mesmo viés de confirmação, a decisão sobre o que é falso ou verdadeiro não é tomada pelo usuário, é tomada pela bolha. Porque o viés de confirmação já está dado, então quando chega uma informação nova ou quando chega, às vezes, até um contraponto à forma de pensar da pessoa, ela vai reagir defensivamente”, diz.

Segundo Letícia Cesarino, no entanto, é possível desafiar o modus operandi das redes e mudar a forma como os algoritmos entregam os conteúdos, minimizando o efeito negativo das bolhas.

“Dá para você, por exemplo, numa rede social, estar seguindo perfis, seguindo influenciadores que não são aqueles que normalmente você segue. Não precisa ser necessariamente alguém que pensa o oposto do que você pensa, mas, por exemplo, uma diversidade de interesses. Então, por exemplo, se eu vejo muito conteúdo sobre saúde ou sobre política, aí o algoritmo fica só me mandando conteúdo sobre aquilo, vamos variar esse cardápio. Vamos colocar outros tipos de interesses ali, outros tipos de perfis, influenciadores no seu feed. E também, quando tem o seu feed ali, se você acha que está recebendo muita informação sobre uma coisa só, de uma fonte só, com muito viés de confirmação, você não vai clicar ali. Pode até visualizar, mas você vai clicar para dar um like, ou para reencaminhar, ou para visualizar um vídeo, uma imagem, uma postagem que está falando sobre outra coisa. Então você vai incentivar o viés algorítmico diferente daquele que está formando sua bolha”, diz.




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