O Brasil tem mais de 30 mil cavernas registradas — e esse número pode ultrapassar 300 mil. Mas, ao mesmo tempo em que cresce o interesse turístico por esses ambientes, aumenta também o desafio de explorar sem comprometer ecossistemas tão frágeis.
Pesquisadores brasileiros estão testando novas formas de medir os impactos da visitação sobre a fauna das cavernas. O trabalho começou no Parque Nacional da Furna Feia, no Rio Grande do Norte, e integra o Plano Nacional de Conservação do Patrimônio Espeleológico.
A ideia é identificar quais áreas podem receber turistas e quais precisam de proteção mais rigorosa, garantindo o uso sustentável dessas formações. Um dos diferenciais do estudo é a simulação de visitas antes da abertura oficial ao público — estratégia ainda pouco usada no país.
A pesquisa vai avançar também em Minas Gerais, estado com maior número de cavernas no Brasil. Lá, será possível comparar áreas já visitadas com outras ainda preservadas. O professor do Centro de Estudos de Biologia Subterrânea da Universidade Federal de Lavras, Rodrigo Lopes Ferreira, defende que algumas cavernas sejam “sacrificadas” para a exploração turística em detrimento da preservação da maioria delas.
“Algumas cavernas precisam ser abertas ao turismo para que a população possa conhecer e a partir do conhecimento passar a admirar, a partir da admiração passar a querer preservar. Então essa sensibilização, ela é essencial. O turismo é atividades crucial, né, que inclusive movimenta a economia em diversos municípios, mas isso tudo precisa ser bem planejado para que esses estragos potenciais que o turismo acaba trazendo ao ecossistema subterrâneo seja minimizado ao máximo, né, para que essa atividade possa então acontecer com o menor prejuízo possível pras cavernas”.
A ideia do estudo é ver na prática os efeitos da presença humana. Entre os impactos que serão avaliados está o estresse da fauna nas cavernas — especialmente de invertebrados que vivem exclusivamente nesses locais. Outro problema é a entrada de matéria orgânica de fora, que pode estimular fungos e biofilmes ligados à iluminação artificial, prejudicando os espeleotemas — formações que levam décadas, ou até séculos, para surgir.
Para monitorar essas mudanças, os pesquisadores combinam análises biológicas com medição ambiental. Eles observam indicadores como gás carbônico, temperatura e umidade. Também analisam a diversidade de espécies e o impacto do pisoteamento, principalmente sobre pequenos invertebrados com pouca mobilidade.