Oi, oi, gente amiga desse nosso programa, que nesta edição, em plena Semana da Água, faz questão de dar voz aos defensores dos recursos hídricos e do meio ambiente aquático que acabaram de participar da segunda edição do Festival das Águas, lá no Instituto Oca do Sol, localizado no Córrego do Urubu, em Brasília.
E foi lá, no coração da Serrinha do Paranoá, que moradores da região, ambientalistas e parlamentares puderam ouvir o clamor das águas, que são a fonte da segurança hídrica da capital federal. Ameaçada por uma disputa judicial e política, a Serrinha foi incluída em um projeto de lei que promete utilizar toda a sua área para sanar os prejuízos causados pelas negociações do Banco Master com o BRB, Banco de Brasília.
E aí, num ritual que contou com a sensibilidade poética da cantora venezuelana Damelis Castillo e a benção do Povo da Água, na pessoa do Babalorixá Aurélio de Odé, todas as pessoas que lá estavam puderam se conectar com a força espiritual da própria natureza.
Então, hoje estou aqui, no Dia Mundial das Águas, no Segundo Festival das Águas, para me unir nessa causa tão importante pela proteção das nascentes do morro da Serrinha e compartilhar os cantos, aprender, me atualizar sobre todo esse maravilhoso trabalho que vem sendo feito pelo Instituto Oca do Sol e todos seus parceiros, pelo movimento 100 mil jovens pela água, a rede ecumênica pela água que está sendo também muito maravilhosa, convocatória… A inspiração! Eu acredito como você, Mara, na inspiração, ou seja, na “ora-ação”.
Pois é, e nós estamos aqui na Serrinha, esse território ameaçado que vai ser alvo, inclusive, de reflexões profundas, né? Sobre a ganância que nos assalta, sobre o desrespeito a essa Grande Mãe, né?
É uma sede não de água, mas uma sede de ambição. Ambição sem medida. Então temos que ficar sempre muito alerta e combater, como falei faz pouco, a nossa própria ignorância. Porque nosso maior inimigo é nossa própria ignorância e a ignorância crassa, pouca ou mediana que possa existir. Porque, na verdade, é necessário… a humanidade nos convoca, nos convoca para uma verdadeira união, uma verdadeira “comum-unidade” pela causa da vida, da vida! E contra todo tipo de ambição e fome.
A musicista Martinha do Coco, moradora há mais de 40 anos do Paranoá, também exprimiu no seu canto e na sua fala o brado de socorro das 119 nascentes catalogadas naquela área de Cerrado nativo. Como é que você se sente às margens dessa Serrinha do Paranoá tão ameaçada, ao som das águas, tocar esse coco que nos anima, que nos fortalece para a luta, não é, minha amiga?
Olha, quando a Martinha do Coco canta coco nessa Serrinha, é exatamente a doação da Martinha, é a voz vibrante contra a não especulação, contra esse povo aqui que querem, né, fracionar essa Serrinha. Ela tem que ser protegida por nós! Então é o meu canto em doação.
Grande Martinha! Pequena no tamanho, grande na alma e no coração.
Bem, as preocupações com os riscos ambientais do uso inadequado da Serrinha do Paranoá motivaram também o discurso da deputada Erika Kokay, do PT do Distrito Federal.
É preciso que a gente entenda que essas águas são sempre abraçadas. As pessoas falam “emendadas”, eu digo: não, são abraçadas. E elas fazem esse abraço que nos possibilita a vida. E aqui, no dia de hoje, nós estamos em contato com as diversas expressões de vida, para que a gente possa, inclusive, dialogar com a água que carregamos dentro de nós e para que nós possamos ter uma noção exata de que a vida é entrelaçada.
O ser humano não é dono da vida e a vida não pode ser pisoteada, nem a água pode ser transformada em mercadoria. A água não é mercadoria, energia não é mercadoria, e nem os nossos corpos são mercadoria. Então, portanto, é romper uma mercadorização que está em curso e que nos afasta da essência da vida. Então, aqui no dia de hoje, é a gente sentir a força das diversas expressões da vida, porque o ser humano não é dono da vida, mas faz parte dessa trama mágica de vida.
Pois é, mas além da mobilização da sociedade como um todo, de que forma a gente vai poder vencer esse projeto inominável de ocupação dessa área por mais um empreendimento imobiliário que certamente vai mercantilizar a água, sim, porque é daqui que a gente encontra a nossa fonte de sobrevivência, porque é daqui que sai, inclusive, a água para todo o Distrito Federal, não é?
Sim, aqui nessa região nós temos mais de cem nascentes. E as nascentes, elas se conectam. E eles estão dizendo: “Não, mas nós queremos colocar à venda uma área onde não tem nascente”, como se as nascentes, elas não corressem e elas não alimentassem os aquíferos e, a partir daí, possibilitassem que nós tenhamos acesso à própria água.
E daqui sai grande parte da água potável que vai para o Lago do Paranoá. Então eu penso que, para além da nossa mobilização — é insubstituível a mobilização —, é que nós possamos tocar o coração de todas as pessoas que moram aqui, ou de todas as pessoas que estão neste planeta, eu diria, para que nós possamos defender a Serrinha e recorrer a todos os instrumentos, a todos os instrumentos, ao poder público.
Nós já estivemos no Ministério Público, nós queremos envolver o conjunto da sociedade e as instituições que têm a função de defender a vida para que nós possamos dizer que é preciso proteger a Serrinha. É futuro, mas, antes disso, é presente e também é passado. Com toda a certeza, então, contamos inclusive com o seu desempenho a favor dessa causa e de tantas outras no parlamento brasileiro.
Essa é uma causa absolutamente prioritária. A gente precisa dizer o seguinte: nós queremos as nascentes, nós queremos a vegetação, nós queremos essa trama de vida, ou nós queremos a impermeabilização do solo? Ou nós queremos assorear os lagos, acabar com as nascentes em função da construção de imóveis de luxo? A sociedade precisa se mobilizar e está se mobilizando. E eu diria: esses 100 mil jovens que lutam pela água, eles estão aqui, lutando pela água e defendendo a Serrinha.
É, juntas somos mais fortes, né, amiga?