A experiência de ser mãe é naturalmente uma jornada complexa e cheia de descobertas. No caso de uma realidade atípica, os desafios são muitos e quando a condição de deficiência física é da mãe? Tudo bem também… Afinal, a maternidade é o sonho de muitas mulheres. Independentemente, da condição física.

Karla Garcia Luiz nasceu com uma deficiência que compromete a sua mobilidade e é mãe de Helena, uma garotinha de 5 anos. 

Mestra e doutora em Psicologia Social pela Universidade Federal de Santa Catarina, Karla diz que a maternidade atípica causa surpresa, porque ainda existe um imaginário social de que pessoas com deficiência só são cuidadas; e, por isso, não podem exercer o cuidado.

“Preciso de cuidado para a manutenção da minha vida e eu cuido da minha filha também. Não nos moldes tradicionais que as mães sem deficiência cuidam em alguns aspectos, mas eu também cuido. Vou te dar um exemplo aqui: quando eu não conseguia dar o banho, eu também cuidava de alguma maneira desse momento, porque eu dizia para o pai da minha filha: ‘olha, hoje é dia de lavar o cabelo, ah vai botar essa roupa ou aquela outra roupa’. Então, o cuidado precisa ser visto de uma maneira também mais ampla. Então, mesmo que você necessite de cuidado para a manutenção da sua vida, você também pode cuidar de uma outra vida”.

Os detalhes da rotina de uma pessoa com deficiência ensinam tanto para a mãe quanto ao filho. Karla comenta que já percebeu, em ações do dia-a-dia, que a sua filha encara a deficiência com muita naturalidade. 

“Quando ela tinha um ano e meio, ela estava em pezinho assim, já estava caminhando, e ela me deu a mão assim como se quisesse me ajudar a levantar da cama. E eu lembro de ter ficado olhando assim para o meu marido e a gente achou aquilo o máximo, assim: ‘nossa, ela entendeu’. Depois ela começou a compreender que para sentar no sofá e dar de mamar, a mamãe precisava colocar o pé para cima num puff. E aí ela começou a querer ajeitar o puff, puxar minha perna para cima do puff, e era muito interessante”.

Segundo Karla, a deficiência não causa qualquer estranheza para Helena. Aos poucos, ela percebe que existem diferentes formas de ser e estar no mundo. 

“A minha filha já experimenta situações em relação à deficiência que outras crianças não experimentam. Essa questão do repertório social, desse reconhecimento de que há muitas formas de ser e estar no mundo, né? E que está tudo bem, e que a gente não precisa olhar com estranheza. É… isso é muito legal. Então, eu acho que a gente precisa transformar esse tipo de pensamento”.

Karla lamenta o fato de as mudanças na sociedade acontecerem lentamente e de a mãe com deficiência precisar ter que reivindicar o direito de exercer a sua maternidade, apesar dos olhares, dos comentários e de uma concepção  equivocada sobre a deficiência.




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